O ex-presidente e responsável pela regulamentação da maconha no Uruguai, José “Pepe” Mujica esteve ontem no Ginásio do Círculo Militar do Paraná, para falar para mais quatro mil pessoas, sobre democracia. Entre todo o papo, ele falou que impeachment da presidente Dilma Rousseff “fez muito mal para a imagem do Brasil” e disse também que temos que lutar pelos nossos direitos. Confira só, exclusivo!

Mujica
Quem não está familiarizado com esse senhor e, acha que ele apenas legalizou e regulamentou a maconha no seu país, está muito enganado(a) – saiba que o Pepe já foi preso político durante quatorze anos, por combater à ditadura civil-militar no Uruguai de 1973 a 1985. E só entre 2010 e 2015, ele foi presidente. Em cinco anos ele mostrou como cuidar do seu povo. A atitude dele, fez com que, em 2013, o Uruguai fosse eleito o país do ano pela revista inglesa The Economist. Intelectuais, celebridades e jovens se encantaram com o jeito de ser de Mujica, que andava num velho Fusca e doava 90% do salário de presidente, governar.

Muita gente, mesmo sem convite, enfrentou uma fila sinistra, quando cheguei as 8:23 já tinha gente ocupando mais de meia quadra pra entrar no evento, organizado pelo Laboratório de Cultura Digital e desenvolvido pelo Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com apoio da APP Sindicato – que representa professores da rede estadual de ensino. O seminário sobre América Latina, reuniu também representantes da academia, como o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Gilberto Maringoni, autor de doze livros com experiência na área de história da América Latina; Heliana Hemerito dos Santos, militante do movimento da cultura negra e do enfrentamento na violência contra mulheres; e a professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Lívia Morales.

Todas as falas foram boas, do assunto da violência que vemos nas salas de aula, na rua, o despreparo do sistema de ensino, do governo em nos cuidar e a cultura do machismo incutida na nossa sociedade, da manipulação da mídia… Mas o que geral esperava  ansiosamente, era o velinho que ficava passando a mão sobre os joelhos a cada instante – como se tivesse mais ansioso que nós, para nos contar sobre o seu expertise.

Ilustre casal, foto Mauro Leno
Ilustre casal, foto Mauro Leno

Pepe Mujica deixou sua mulher junto com a platéia – que prestava muita atenção a todas as falas e parecia muito contente de estar ali, me fez sentir que o velho ditado era real: atrás de um grande homem, sempre tem uma grande mulher, Lucía Topolanski também é senadora o Uruguai e é tão “de boa” quanto “Pepe”. Onze horas e foi então que começou o melhor papo que já ouvi na vida, afiado e calmo como um avô. A prosa começou sobre a economia no Brasil e uma afirmação: as melhoras na economia não foi feito por Temer. “Ela {melhora na econômia} iria ocorrer de toda forma”

Ainda sobre o atual momento Brasil
Pepe disse que a repercussão internacional do impeachment que está rolando aqui, fez mal ao nosso país, que as pessoas deveriam entender o que significa proletáriado e lutar por seu semelhantes, sem pestanejar ele também entrou no mérito da democracia e a desigualdade que assola nosso planeta e destacou como, nós brasileiros, reduzimos a pobreza por aqui nos últimos anos e lembrou a todos que lutas sociais são difíceis “mesmo”.

“Os que lutaram pela jornada de oito horas em 1880 foram mortos. Cinquenta anos depois ninguém mais discutia isso. É sempre assim na luta por direitos”, disse.

Mujica também questionou qual o tempo que cada um tem para viver, amar, passar com os amigos ou filhos – que para ele são as coisas eternas e que fazem o homem feliz – esqueçam a ilusão da compra. Ele se referiu sobre como as pessoas acham que felicidade é dinheiro, é comprar e recordou que ninguém leva nada após a morte.

A coletiva foi bem curtinha, mas tudo que ele falou na manhã desta quarta (27) vão ecoar nas cabeças que estiveram ali durante muito tempo, quem sabe a vida toda. Você que está lendo esse relato, com certeza tem uma ideia do que estou falando.

“O que não está em crise é o que morreu”

“Estar vivo é estar sempre em crise. O que não está em crise é o que morreu. Não acontece nada. Na vida, há contradições, há luta. E neste momento na América Latina algumas conquistas que houve talvez se percam. Outras ficarão em definitivo”.

O ex-presidente, agora Senador do Uruguai, terminou sua fala querendo minimizar o ódio no coração de todos, sobre todo tipo de ódio, que vemos tanto na proibição da maconha, quanto no atual cenário político, disse a todos que devemos e precisamos lutar por nossas causas, lutar para mudar. Para deixar um lugar melhor não para só nós, mas para todo o mundo. Mas sem ódio!

“Não creio que o ódio possa construir nada. Sempre vai haver diferenças entre os brasileiros. Não se pode achar que não vai haver diferenças entre 200 milhões de pessoas. Mas é preciso aprender a conviver com a diferença. Tolerar-se. Aceitar-se. E digo mais, amar-se.”

Capitalismo vs Socialismo
Como já sabemos o capitalismo e socialismo de mil anos atrás não é o mesmo de hoje e, Mujica sabe disso, segundo ele não devemos acabar com o capitalismo, devemos colocar as pessoas nos lugares corretos.

“Os que gostam muito do dinheiro, é preciso pô-los na indústria, no comércio. Mas é preciso expulsá-los da política. O político tem que viver nas condições em que a maioria do povo vive. E não como a minoria aristocrática”. E encerrou afirmando que é “mentira que todo mundo tem preço. Muita gente não tem preço. E são esses que precisamos eleger”.

Foi assim que em uma manhã, Curitiba teve uma aula de democracia. A primeira visita de Mujica na capital paranaense fica pra história. Quem quiser ver a fala dele na integra pode assistir o vídeo que Marcelo Borges subiu no youtube. Valeu Marcelo!

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